Rádio Pirata: O Edifício-Cidade
Abertura
Aplaude-se @s Pauliteirit@s de Viseu Norte
O Pai Natal chega a Viseu
assiste-se... Viseu, c. 1976. Do arquivo de Júlio Oliveira. Relativo a uma festa de Natal dos Pauliteiritos de Abraveses.
Boas Vindas
Falam José Fernandes & Rui Macário Ribeiro
É quase Natal.
Antes, houve outros Natais, como o de cerca de 1976, em Abraveses, onde o Sr. de Vermelho chegava anualmente, aterrando no Aeródromo e deslocando-se até ao centro da Vila, em parada concorrida (agradecendo a Júlio Pereira pela partilha vídeo). Os tempos dos Pauliteiritos de Abraveses, precursores dos atuais Pauliteirit@s Viseu Norte.
Hoje, quase Natal e quase 2025, estamos à bica do segundo quartel de existência do Teatro Viriato. Aqui mesmo, onde nos encontramos.
A cidade de Viseu é conhecida, também, por isso. Por um equipamento cultural e por uma entidade cultural, com sua estrutura. O Teatro Viriato fez o seu percurso, construiu a sua identidade e procura continuar a fazê-lo, nas cambiantes que se tornam necessárias com o passar dos anos.
Essa história se contará de outro modo e noutra ocasião.
Hoje, quase Natal e quase 2025, vamos tentar olhar para a cidade sem o Teatro Viriato. Sem o Teatro Avenida de 2000 lugares! Sem estruturas profissionais (como hoje as entendemos) e sem equipamentos culturais de relevo, ou reconhecimento nacional e internacional.
Não se trata de História, com capitular. Trata-se de parte de um Arquivo, dos Arquivadores, e do início da apresentação do que poderá ser o conjunto das participações individuais na construção de algo maior: uma cidade. Com ruas amplas e becos. Com vizinhas e vizinhos. Com vida. Com nomes que preenchem o imaginário e outros que lhe pertencem, mas por vezes se omite sem que haja nisso intenção.
Uma Cidade é sempre de muitos. Falaremos de vários. Esperamos dar passo a que haja lugar onde mencionar os restantes. E apresentar o seu contributo. E apresentar outras visões e outros Arquivos, mesmo que sobre o mesmo assunto. Sobretudo se sobre o mesmo assunto.
Por hoje e por agora ficamo-nos pelas questões:
E se, um dia, não houvesse teatros com nome grande na fachada?
E se, um dia, a possibilidade de concretizar, implicasse mais cuidado e recato? Mais eufemismos e mais arrojo?
E se, um dia, quem tivesse feito, agisse por conta e risco, para alterar os “estados das coisas”?
Nesta emissão inaugural da Rádio-Pirata e ao longo da próxima hora e alguns minutos, concretizamos os “E se?” anteriores, com o contexto de uma Rádio que procura dar corpo moderno ao que outras foram, mais ativamente: desafios e manifestações.
Da Rádio-Escola dos anos 60, à Rádio no Ar, em plenos 80, com outras entretanto e algumas após.
Boa Noite e Bem Vindos à Rádio!
Notícia da década: Anos '60
Falam Joana Gomes Martins & André Albuquerque
O Homem sonhou, Deus quis e a obra nasceu: os manuais de História marcarão para sempre este ano de 1969 como o ano em que uma das maiores e mais brilhantes realizações da raça humana aconteceu, a chegada à Lua. Quando Neil Armstrong se tornou no primeiro Homem a pisar a superfície lunar, foi com enorme gáudio e comoção que o Mundo percebeu que nada é impossível e que as realizações permitidas pela ciência e pelo valoroso trabalho dos mais brilhantes cérebros do planeta estão ainda muito longe de cessar.
É com redobrado ânimo que também no nosso extenso território português, encaramos a mudança de década e as enormes possibilidades de desenvolvimento que temos pela frente.
E graças às prósperas políticas elaboradas por quem de direito e excelentemente coordenadas pelo nosso Presidente do Conselho, Dr. Marcello Caetano, também Viseu e o interior do país florescem.
Prova disso é a notável diligência com que a Câmara Municipal da cidade trabalhou, no seguimento do encerramento do Teatro Viriato em 1960 e do Avenida Teatro em 1961.
A cidade ficou órfã destes magníficos edifícios e é com uma alegria transbordante que depois de declarada em 1966 a intenção da criação de um novo Cine-Teatro, é publicada em Diário da República, em 1968, a alienação do terreno tangente à Caixa de Previdência para a construção conjunta desta nova casa de espectáculos e de casas para habitação com rendas económicas.
E Viseu bem precisa deste novo palco, já que a nossa progressiva urbe não se distancia da marcha dos tempos, pelo contrário, aproveitando a genica da geração mais jovem, Viseu tem acompanhado as novas sonoridades musicais que nos chegam do exterior e que tão bem ou melhor temos executado.
Sempre enquadrados pela boa supervisão familiar, estes jovens vivazes têm criado espaços de salutar convívio. São agora regulares as matinés a eles dedicadas no Clube de Viseu, mas também os variados bailes de garagem, facilitados pelo aparecimento de novos gira discos portáteis e pela massificação dos LP’s de vinyl, que já no final da década de 50 começava a surgir.
Mas os jovens de Viseu não se ficaram pela escuta e pela dança, meteram mãos à obra! No Liceu dinamizaram a rádio escola e durante a década criaram grupos de música moderna que contribuíram para a animação da cidade. Os Diamantes, Os Condes, Os Ases e os The Kings, são alguns deles, mas talvez o Conjunto Académico Os Tubarões tenha sido o grupo com maior sucesso nacional. Sucesso esse muito granjeado às custas de uma inesquecível participação no Grande Concurso Ié-Ié, em 1966, onde na final, no Teatro Monumental em Lisboa, os nossos Tubarões das beiras alcançaram um honroso oitavo lugar, no meio de mais de 70 bandas de todo o país.
E que não se pense que ir com a modernidade é esquecer a erudição e as nossas nobres raízes culturais. Viseu não o faz nem nunca o fará, até porque neste ano de 1969, foi com enorme prazer que vimos abrir na nossa localidade, uma agência da Juventude Musical Portuguesa, que vai já organizando recitais e concertos de música erudita no Clube de Viseu.
Quem sabe se com a criação desta agência não poderão os viseenses assistir ao aparecimento de uma orquestra de câmara com igual qualidade à da Orquestra de Câmara de Lisboa que, dirigida pelo Maestro Ivo Cruz, presenteou a cidade com um extraordinário concerto por ocasião do encerramento da época de 1963 da delegação de Viseu da Pró-Arte.
Quem continua a sua actividade de importante preservação e divulgação das tradições, são os Pauliteiritos de Abraveses, fundados pelo ilustre antigo Presidente da nossa Câmara Municipal, o Tenente Coronel António Silva Simões, também fundador do Teatro que um dia esperamos ostente o seu nome. Lembramos que, entre muitas outras actividades, foi por esta sala que passou também a Companhia Rafael Oliveira, aquela que há décadas continua sendo uma das mais prestigiadas e importantes companhias do nosso país, e que ainda no final de 1968 e início deste, pisou terras de Viriato com o seu Teatro Desmontável numa carreira de enorme triunfo.
E falando de teatro, não esquecemos que também em 1968, o CETEV, Centro Experimental de Teatro de Viseu, apresentou 3 peças no palco do Salão Nobre do Clube de Viseu, salientando-se assim a fome dos viseenses pelo teatro que pode muito bem acabar em fartura num futuro próximo.
Portugal, país cada vez mais robusto e capaz de aceitar os desafios que a entrada na nova década trará, é a cada ano que passa um exemplo de que são a unidade nacional e o respeito e devoção pelas instituições e seus comandantes, que tornam as pátrias fortes.
E Viseu, esta valorosa cidade beirã no coração da Pátria, junta ao trabalho incansável do quotidiano, um apetite cada vez maior por eventos culturais e artísticos que, nos momentos de lazer, renovem a alegria de ser português e do orgulho que isso representa.
Momento do Arquivo #1
Escuta-se João Luís Oliva no congresso dos Antigos alunos do liceu de viseu. 11 e 12 de set. 1993; do arquivo de José Fernandes
Momento musical de um homem e o seu acordeão #1
Escuta-se Ricardo Augusto
Conversa #1
Entrevista-se Armando Ferreira
Interlúdio Publicitário #1
Recorda-se "Boca Doce"
Notícia da década: Anos '70
Falam Joana Gomes Martins & André Albuquerque
Findou a década de 70. Passou por todos como um lampejo de esperança que trouxe viçosas cores às ruas do país, limpando-as do cinzento que as manchava há já demasiado tempo.
Viseu não se excluiu desta notável mudança, e as classes trabalhadoras e as crianças tiveram nesta década a possibilidade de assistir novamente ao teatro livre e moderno.
Pena é que a Centelha que nestas terras se acendeu, rapidamente se apagou por não existirem as condições mínimas para as práticas culturais. Esta companhia, radicou-se em Viseu em 1977, suportada por subsídio do FAOJ que durou apenas um semestre devido à ainda conturbada transição política que vivemos em Portugal.
O fim abrupto desse apoio não permitiu que esta companhia de teatro profissional ganhasse raízes numa cidade do interior que necessitava das suas chispas. Para lá da produção dos espectáculos, quiseram ir ao encontro do povo, privilegiando a itinerância como ponto de honra do seu projecto.
É notável que cá no burgo, apenas o Auditório da Feira, com as suas cadeiras laranja de plástico pouco confortáveis, esteja apto para receber condignamente certo tipo de espectáculos mais elaborados.
No entanto, teremos sempre memória de neste auditório termos assistido com impagável prazer, ao concerto de Zeca Afonso, Vitorino e Fausto Bordalo Dias, concerto esse que aconteceu também graças aos esforços desta Centelha que sempre soube que a cultura beirã também pode e deve fervilhar.
Com a queda do Estado Novo, Viseu recebeu com alegria e satisfação as campanhas de dinamização cultural do MFA. Essas campanhas ajudaram sobremaneira na alfabetização do povo, e na nossa cidade contaram também com o prestimoso afinco de associações locais, transformando o panorama pouco animador da literacia dos nossos cidadãos.
Estas campanhas serão também importantes para que os viseenses, se sintam confortáveis com as sessões de cinema do Cineclube de Viseu, ficando aptos para a leitura das legendas dos filmes estrangeiros, ainda mais numa altura em que desde 1972, a programação do Cineclube ganha um impulso decisivo para assumir de novo o carácter de regularidade.
O Auditório Calouste Gulbenkian da Casa Museu Almeida Moreira, ali criado com a grande remodelação da casa nos anos 60, é agora a sala do Cineclube. Para lá do espólio que podemos visitar na Casa Museu, continua também a funcionar o Serviço Educativo do Museu Grão Vasco, contribuindo para que as crianças de hoje sejam adultos mais esclarecidos e capazes de continuar a contrariar o elitismo outrora imposto pelo Estado Novo.
Ainda sobre as campanhas do MFA, realçamos a que incluiu a pintura mural no edifício da Caixa Geral de Depósitos em Abril de 1975 e com a meritória participação de professores das Belas Artes do Porto. Inserida nesta campanha esteve a Companhia de Teatro de Campolide, que levou à cena no Largo da Sé, “Fulgor e Morte de Joaquim Murieta”, de Pablo Neruda.
No início da década, apesar da penosa demolição do edifício do Avenida Teatro, já se levantava o véu para a mudança que o fim do funesto regime permitiu.
Em Março de 1971, teve lugar um Encontro de Poesia e Música, no Clube de Viseu, com Natália Correia e David Mourão Ferreira nas palavras e o Maestro António Vitorino d’Almeida nas notas musicais.
Nesse mês e na mesma sala, a Agência de Viseu da Juventude Musical Portuguesa, trouxe-nos um espectáculo do Círculo Portuense de Ópera.
E em 73 e 74, a cargo desta Agência, assistimos a recitais de canto e piano de onde destacamos o recital do pianista Jeffrey Swan, e o recital de obras do Maestro Fernando Lopes Graça.
Neste ano de encerramento da década, Viseu foi em peso ao Pavilhão Gimnodesportivo do Fontelo assistir ao espectáculo da Companhia Nacional de Bailado. O local não foi certamente o mais adequado, mas receber um espectáculo deste calibre mostra que é com renovado optimismo que as gentes de Viseu poderão encarar o futuro.
O panorama e a democratização culturais têm tido os seus avanços e recuos, mas as sementes desta década, assim sejam cuidadas e protegidas de ventos adversos que teimam em tentar afastá-las, germinarão corajosas nas mentes dos viseenses.
Interlúdio Publicitário #2
Recorda-se "cIGARROS kART"
Um mural de 25 de Abril em Viseu
Recria-se um mural comunitário de Abril de 1975 [Sugere-se a reportagem: arquivos.rtp.pt/conteudos/acao-civica-do-mfa-em-viseu/]
Momento do Arquivo #2
Escuta-se Jorge Fraga em entrevista, 2016; do arquivo de Rui Macário Ribeiro
Momento musical de um homem e o seu acordeão #2
Escuta-se Ricardo Augusto
Interlúdio Publicitário #2
Recorda-se "batata frita pala pala"
Notícia da década: Anos '80
Falam Joana Gomes Martins & André Albuquerque
E agora, que já lá estamos
Vamos ter tudo aquilo que desejamos
Um PA pras vozes e uma Fender
Oh boy, é tão bom estar na CEE!
Assim cantava no início desta década que agora termina o Grupo Novo Rock, mais conhecido como GNR. É verdade que a necessidade aguça o engenho, também é verdade que este desígnio nacional de entrada na CEE, para o qual o país foi lançado pelos nossos representantes políticos, trouxe uma onda inflamada de novas possibilidades e realizações.
Na recente publicação Viseu Municipalis, podemos ler que
“(o público), sem o hábito de assistir às iniciativas culturais preferia ficar em casa a ir ver os raros momentos culturais da cidade. Aliás, os espaços destinados a tais iniciativas também não eram convidativos. Frios e desconfortáveis, prejudicavam a atenção do espectador que, enquanto assistia à peça de teatro, ao concerto musical ou a outro género de evento, não podia deixar de lembrar com saudade o aconchego do lar.” Fim de citação.
Chegamos agora ao final de 1989 com a firme convicção de que, apesar das dificuldades inerentes a empreitadas deste calibre, o já muito planeado Complexo B, com o seu moderno e versátil cineteatro, ajudará a preencher a enorme lacuna deixada pelo encerramento de antigas e queridas salas de cultura, de que é exemplo o Cine Rossio, que fechou portas em 86.
E terá sido a actividade de uma massa cultural viseense cada vez mais incomodada com o marasmo que nesta área se vivia na cidade, que obrigou a que a política se visse motivada a proporcionar as infraestruturas que esta capital de distrito merece.
Talvez inebriada pelo espírito de tudo poder começar a acontecer, esta massa foi-se movimentando e fundando colectivos e associações durante os anos 80, prometendo alterar o rumo da criação e divulgação artística de Viseu. As gerações vindouras não mais poderão dizer que esta cidade jardim é culturalmente e artisticamente uma cidade deserto.
Mas para lá do Complexo B, foi o ano de 85 que reforçou outra ambição para a nossa cidade: a recuperação do edifício do Teatro Viriato para o fim a que está destinado desde o seu aparecimento. Com a estreia a 26 de Setembro desse ano da peça “Teatro das Enormidades Apenas Críveis à Luz Eléctrica”, com textos de Aquilino Ribeiro e co-produzida pela viseense Área Urbana e pelo ACARTE, ficou evidente que aquele local tem de se livrar dos bacalhaus e dar continuidade ao sucesso granjeado por este espectáculo, recebendo de novo no seu seio o encanto e o mistério do teatro.
Que bom teria já sido assistir num palco renovado do Viriato aos espectáculos das Companhia de Teatro de Viseu, fundada em 82, ou ao “Mário Gin-Tónico”, de Mário Viegas, que aconteceu em Viseu em 86, organizado pela Associação Encontro.
Importa recordar que em 81, a propósito da inauguração da Galeria 22, se escrevia no Jornal da Beira que
“Viseu não é propriamente fértil em galerias de arte. Não tem mesmo nada do género. A 22 poderá ser – oxalá que sim – o preencher dessa lacuna. Em qualidade, quantidade e continuidade.” Fim de citação.
Oito anos volvidos, e apesar de em 86 se ter inaugurado a Galeria de Artes Visuais na Casa Museu Almeida Moreira, esta lacuna subsiste. Entre 83 e 84, foram lançados 6 números da revista Zut!. Com esta publicação, que de acordo com os seus dinamizadores tentava lutar contra a pasmaceira cultural e artística, a lacuna ficou menor, mas ainda presente. As artes plásticas e todas as outras, precisam do envolvimento aturado da sociedade viseense, tanto a civil como a política, para que os ganhos desta década não sejam um mero verbo de encher.
A criação do Fórum Viseu em 87, está a provar-se como muito importante para a estruturação do trabalho cultural na nossa cidade, tendo ainda o mérito de apoiar as mais recentes associações e artistas, não deixando de fora todas as colectividades que há décadas trabalham na preservação da nossa cultura popular que importa cuidar.
Um dos frutos mais relevantes do trabalho cultural desta década, é a diversificação das áreas disciplinares a que temos acesso. Prova disso é que, por iniciativa da Pro-Viseu, dispomos desde 1985 de um Conservatório Regional de Música – quem sabe se as crianças de hoje não poderão igualar em qualidade o concerto dado em 83 pelos Trovante no Pavilhão A da Feira.
Contamos com uma nova sala de cinema, o São Mateus, inaugurada em 84, e com o Auditório Mirita Casimiro, onde o cinema mas também outras artes e eventos poderão acontecer. Este abriu portas no ano corrente, depois de em 80 o Centro Cultural Distrital de Viseu ter recebido apoio estatal para este fim.
É certo que não estamos ainda na pole position desta corrida por mais arte e cultura na cidade, mas é inegável que desde o início da década subimos vários lugares na grelha de partida. O fulgor criativo desta década prodigiosa em que as rádios-pirata aparecem como cogumelos e em que o país acompanha diariamente as suas histórias na novela da noite, não podia deixar de atingir também a nossa cidade. Viseu aceitou o trânsito das gerações e abriu-se à novidade.
Rádio Cowboy
Escuta-se "D. Fernanda" com José Pereira
Interlúdio Publicitário #3
Recorda-se "Stucomat"
Conversa #2
Entrevista-se Joaquim Alexandre Rodrigues
Ao edifício do Teatro Viriato enquanto Armazém
Assiste-se... Viseu, década de 1980 do arquivo de José Fernandes.
Teatro de Enormidades Apenas Críveis à Luz Elétrica
Assiste-se... Viseu, 1985. Produção Área Urbana – Núcleo de Ação Cultural, com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian, o apoio da Câmara Municipal de Viseu e do Governo Civil do Distrito de Viseu, com textos de Aqulino Ribeiro, encenada e interpretada por Ricardo Pais, Olga Roriz, Luís Madureira, António Emiliano, com cenário de António Lagarto e luz de Orlando Worm, inserida nas comemorações do Centenário de Aquilino Ribeiro (setembro). Do arquivo de José Fernandes.
Notícia da década: Anos '90
Falam Joana Gomes Martins & André Albuquerque
Major Alvega, Lucretia Divina, Smurfs, Sapere Aude, Huckleberry Finn, Shiver, Dead Corporation, Giberish. Estes são alguns dos nomes que mais se ouvem naquela que podemos chamar de nova cena musical da cidade de Viseu. Este movimento juvenil tem ganhado força e até já há quem considere que Viseu é uma espécie de pequena Seattle nacional.
E se nos anos 80 os iniciadores desta libertação artística, os Bastardos do Cardeal, usaram o punk como estilo de expressão, a este vieram agora juntar-se outros estilos e sonoridades em tons de electrónica, techno, trash, pós-industrial e até os First Degree, que acrescentam um pouco do Bronx a Viseu com as suas rimas e batidas de rap.
Para o aparecimento e desenvolvimento desta música urbana contribuiu o Centro de Pesquisas Ruído Branco, onde a nova geração encontrou um local com material de ensaio, de gravação, instrumentos e onde o convívio os levou, através da experimentação, a sedimentar as suas criações e também a libertar pensamentos e angústias no limiar de um novo século.
Viseu é agora uma cidade onde, em termos de música, a juventude pode dar-se muito bem.
O que se sente no final de mais uma década, é que os habitantes da nossa região, já não aceitam nada que seja diferente de avanço e crescimento no campo cultural e artístico, tanto no desenvolvimento intramuros de novos projectos e consolidação dos existentes, como na possibilidade de assistir com maior e melhor qualidade ao que venha de fora.
O que fica bem demonstrado com a necessidade de abrir uma nova sala de cinema, o Ícaro, que 10 anos depois da abertura do Cinema São Mateus, iniciou a sua actividade em 1994, aumentando assim a oferta comercial de cinema ao importante trabalho do Cineclube de Viseu, cuja actividade sempre se centrou no cinema de autor e está agora mais fulgurante do que nunca.
Prova disso foi o grande colóquio “Viseu Cidade Cultural”, que esta associação realizou em Fevereiro de 91, e onde ficou bem patente que há mesmo um novo impulso e uma nova energia da cultura e das artes locais.
Neste certame, com cerca de dezena e meia de oradores, foi possível ouvir, reflectir e debater profundamente sobre todas as envolvências da actividade cultural da nossa cidade nas suas várias facetas: acção, formação, divulgação, produção, equipamentos e circulação.
Como sempre acontece nestes momentos, as perguntas que se abrem parecem ser sempre mais do que as conclusões que se tiram, mas nesta década de 90, umas vezes melhor, outras pior, agentes culturais, políticos e a população, foram dando as suas respostas.
Mas há uma grande mágoa que vai pairando nas forças vivas da cidade, o desaparecimento do projecto do Complexo B. Aquela que podia ser uma obra de seminal importância para o desenvolvimento de novas possibilidades de cultura, acabou por se esfumar, deixando profissionais e público sem este pão que as suas bocas tanto precisavam.
No entanto, e sem que uma mão lave a outra, foi com imensa alegria que outro projecto sonhado teve a sua concretização a 29 de Janeiro deste ano de 99: o regresso da programação regular do Teatro Viriato, o único teatro municipal do país que conta com uma companhia residente de dança contemporânea, a Companhia Paulo Ribeiro.
É impossível avaliar se o entusiasmo desta reabertura se pode equiparar ao da abertura original em 1883, sob o nome Theatro Boa União, mas a julgar pela quantidade de casacos de peles que saíram dos armários e que enchem agora o bengaleiro do renovado Viriato, os viseenses ansiavam por voltar a ter uma sala de espectáculos moderna e pronta para acolher produções que de outra forma seria impossível receber na nossa cidade.
Viseu parece pronta para entrar no novo século com matéria mais cinzenta e corações mais distraídos. Esperemos apenas que os corpos não voltem à câmara lenta depois destes anos noventa bem medidos.
Momento musical de um homem e o seu acordeão #3
Escuta-se Ricardo Augusto
Percursos Alternativos
Assiste-se ao teaser do documentário "Percursos Alternativos" (2024); de Rui Mota Pinto. Apoio: Município de Viseu; Financiamento: Eixo Cultura.
Teatro Viriato
Assiste-se... De Armazém, passando pelas obras, à reabertura do Teatro Viriato. Do arquivo de José Fernandes.
Até breve
Falam José Fernandes & Rui Macário Ribeiro
E foi assim…
Com um pouco do que se mostrou e partilhou. Com muito que não houve tempo – literal – para indicar. Com o tanto que, esperamos, possa vir a ser Arquivado e disponibilizado.
Com tudo isso que, no fundo, traduz o espírito de uma cidade que exigiu espaços próprios para se exprimir.
O mais impactante espaço, porventura, sendo o Teatro Viriato.
Renovado após extensas obras, abre portas para a sua programação regular contínua, a 29 de Janeiro de 1999, com a Direção Artística de Paulo Ribeiro, estreando criação da autoria de Ricardo Pais, “Raízes Rurais, Paixões Urbanas”.
De então para cá multiplicaram-se espaços mais ou menos alternativos; entidades e artistas/criadores individuais; propostas nas várias áreas e domínios culturais. Há sempre muito a fazer. O primeiro passo, propomos que seja não esquecer de onde viemos.
Para isso, propomos a criação do Arquivo dos Arquivadores, onde todo e qualquer contributo ou referência possa ter lugar, nesse contar de histórias que se traduza na História dos que fazem as cidades. O convite é a todos e aberto a todos, sobre Viseu e os seus caminhos, mesmo que alguns becos existam no percurso.
Pedimos o vosso tempo e o que com ele considerem possível realizar, seja na forma documental (de jornais a notas pessoais), vídeo, áudio ou outros. Até mesmo o envio de uma mensagem pessoal, gravada por telemóvel e endereçada via plataforma de submissão que faremos divulgar e que para os presentes está disponível nos cartões que receberam ao entrar nesta emissão. Se o contributo for presencial, aqui, no horário de funcionamento do Teatro Viriato, na bilheteira; ou no Espaço Arquivo EPHEMERA, no Edifício dos Serviços Centrais do Instituto Politécnico de Viseu.
Até ao 26º aniversário do Teatro Viriato, ficará disponível na plataforma do projeto, a gravação da sessão de hoje, bem como a totalidade dos materiais gráficos (vídeos e fotografias) utilizados.
Ficará igualmente disponível um princípio de Arquivo, de Arquivadores com os quais se inicia esta proposta, sendo o primeiro deles José Fernandes – o Arquivador que nos inspirou.
A nossa gratidão a todos os que estiveram aqui hoje, na plateia; bem como aos que se encontraram no palco.
Até breve.
Esta foi a emissão inaugural e experimental da Rádio-Pirata.
Obrigado por nos acompanharem.
Ficha Técnica
COORDENAÇÃO GERAL: Rui Macário Ribeiro & José Fernandes
COORDENAÇÃO GRÁFICA E EDIÇÃO: Luís Belo
INTERPRETAÇÃO: Joana Gomes Martins & André Albuquerque
INTERPRETAÇÃO MUSICAL: Ricardo Augusto
INTERPRETAÇÃO NÃO-PRESENCIAL DE VARIEDADES: José Pereira “Mágico”
INTÉRPRETES DE LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA: Alexandra Santiago e Rita Gonçalves
DIREÇÃO TÉCNICA: Cristóvão Cunha
TÉCNICO DE SOM: Tomás Gamboa
COM A PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE: @S Pauliteirit@s de Viseu Norte, Armando Ferreira, Joaquim Alexandre Rodrigues
COM UM AGRADECIMENTO ESPECIAL A: “Zé”, filhos Fraga, Ribeiro de Carvalho, “D. Fernanda”, Ana Bento
TEXTOS DAS “NOTÍCIAS DA DÉCADA”: André Albuquerque
SEGMENTO RÁDIO-COWBOY TEXTOS E ENTREVISTA: José Pereira
UMA PRODUÇÃO: Projecto Património/Memória Comum – Associação;
COPRODUÇÃO: Teatro Viriato
APOIO: República Portuguesa – Cultura | DGARTES – Direção-Geral das Artes, e Município de Viseu | Eixo Cultura 2022-2025