Peripatos

“Peripatos” é o nome atribuído ao percurso que circundava a Acrópole (Atenas, Grécia) e que se diz ter sido utilizado por Aristóteles durante as suas lições.
Caminhar e pensar. Caminhar e debater. Caminhar como ato e gesto de chegar a distintos locais e conceitos. Em simultâneo.
Desse modo de fazer, derivou uma escola de pensamento, de quem prosseguisse uma filosofia Aristotélica.
Se houvesse um percurso similar, atual, que conceitos e que percursos, poderiam nortear cada etapa?
Na sua génese, propôs-se definir, ao longo de 8 etapas, um tópico e caminhar! Um mundo visto em 360º, sendo que cada grau corresponde a um minuto específico (8 sessões de 45 minutos). O culminar é um Glossário de termos ou conceitos de impacto público potencial. Um novo Peripatos.

Etapa 1: Caixa

Novembro, 2024

Quinta da Cruz - Centro de Arte Contemporânea de Viseu

Em torno ao Dia Internacional da Filosofia e em cumulação, próximo ao Dia Internacional da Televisão, pode-se, objetivamente, pensar em Caixas.

Filosofar é ter curiosidade. Arrumar informação obtida (em caixas, gavetas, ainda que mentais). É sair da Caixa; pensar fora dela.

E quanto à “caixa que mudou o mundo”: fez mais que matar a estrela da rádio (The Buggles, 1979)?

Os museus são a “caixa/contentor” ou o seu conteúdo? O Espaço Público é a definição ou a vivência? A Lei ou Prática?

Se num Museu que se circunda de Jardins – a Quinta da Cruz, Centro de Arte Contemporânea de Viseu – caminhamos para dentro, ou lá dentro?

Etapa 2: Fuso

21 Dezembro, 2024

Cava de Viriato, Viseu

*Dezembro é o mês dos Direitos Humanos, poderia ser. Um mês de Advento, para quem crê, o mês do antigo dia de S. Tomé, para quem só crê quando vê. Um mês de Direitos de todos e dos muitos Direitos que todos deveriam ter. Aos poucos… É o que se espera e deseja. Num sapatinho ou meia, que dezembro também traz à memória.*

*O mês do Solstício de Inverno (Verão, no Sul). O mês do fio que se tece e enrola, do frio que faz tecer. Os fusos que são horários, são retidão também. Como Penélope (de que diz poder ser origem da palavra “fuso”, titulação à Rainha de Ítaca, esperando por Ulisses: Penélope era como um “fuso”).*

*No Dia mais curto do ano, quantos fios se ligam e enroscam, entre o Rio que beira a Casa da Ribeira (com seus exemplos de fuso) e os taludes da Cava, com casas vivas e habitadas?*

*Com quantas linhas se faz uma cidade?*

Etapa 3: Caderno

18 Janeiro, 2025

Casa do Miradouro, Viseu

Quando o deus Janus se celebrava e venerava, com ele vinha a noção de início e fim. Era a divindade da transição. Era a divindade das portas abertas a algo.

No mês em que celebra a Educação, debate-se e percorre-se o que se encontra por detrás de cercas e muralhas, com suas aberturas e possibilidades. Debate-se e percorre-se a possibilidade de adicionar ao que somos, enquanto indivíduos e enquanto parte de um grupo, quase sempre em simultâneo. Debate-se e percorre-se o contínuo entre páginas em branco e o suporte onde se lega uma visão do passado, para o futuro.

A partir da Casa do Miradouro, local específico da Coleção Arqueológica José Coelho, com os seus Cadernos Arqueológicos, percorre-se o descobrir e registar quanto às camadas e estratigrafias do tempo. Não sem dúvidas. Não sem que o próprio tempo traga novas conclusões ou análises, sobre os mesmos elementos.

Em Janeiro, mês primeiro do ano, atravessaremos portas de muralha ou os locais onde elas estiveram, um dia, para que os cadernos que se escrevam por outros, tenham a oportunidade de as imaginar também. Educar (a partir da sua etimologia latina) é também avançar e fazer com que se avance.

Etapa 4: Mapa

15 Fevereiro, 2025

Museu Almeida Moreira, Viseu

Se um dia, alguém ouvir, pela rádio, as instruções de como “achar” tesouro, estará em busca, não à caça. Ser pirata, com mapa e com tesouro assinalado, por X provecto, era embalo do século XIX, inspirado nas centúrias anteriores.
Hoje, com ondas 5G, substitutas das AM/FM, a Rádio faz-se também através de browsers, App’s, mais o que houver, de uma tecnologia substituindo outras. Mantêm-se Mapas e mapeamentos.

Em Fevereiro, curto, como as ondas (curtas) do mais longo alcance, centra-se o percurso na Casa que foi de Almeida Moreira. Legada à cidade de Viseu. O Capitão, primeiro Diretor do Museu Grão Vasco, instalado no complexo edificado da Sé.

Qual Hermes que transpunha mensagens entre o panteão, lá se falará, Sábado, dia 15 de Fevereiro, do percurso do Capitão.

Etapa 5: Candeia

17 Maio, 2025

Rossio, Viseu

Os Rossios são as espacialidades concretas e reconhecidas de uma cidade. Talvez por isso se tornem queridas nas vilas e aldeias, para emular ascensão desejada. Os Rossios eram lugares de tudo, sendo amplos e de junção.

Em Maio, com borralho e cerejas, vêm o Dia Internacional da Luz (a 16) e o Dia Internacional dos Museus (a 18). Propõe-se dia 17 de maio reinterpretar o Alvor das Cidades e dos Territórios, antes do Sol nascer, num percurso que espreita a primeira luz da manhã. Quantos viram já o nascer do Sol na cidade?

Etapa 6: Carácter

31 Maio, 2025

Biblioteca Municipal de Viseu

À porta de uma Biblioteca, espera-se por livros, que se entende deverem ser lidos pelos caracteres. Algumas vezes na capa. Outras vezes onde se considerar que prestam melhor serviço. Sempre com caracteres, que no singular se transformam em carácter. Os designers sabem dessas coisas de carácter de uma obra, na antecipação de lhe dar roupa para atrair no Passeio Público.

*Pouca diferença fará a quem não tiver dúvidas linguísticas e raízes mais antigas, Beirãs neste caso: dissessem vosmecês que um caracter era um carácter (como se devia, aliás) e teriam do Vosso carácter uma avaliação pequena.*

Caracterizam-se as pessoas pelos traços de personalidade, retidão, ética!; e os símbolos distinguem-se pelos items componentes: linha, linhas, cruzamentos, pontos, e tudo o que mais. Experimentem escrever sem carácter ou sem caracteres. Há livros assim? Há pessoas assim?

Abril traz o Dia Internacional do Livro (a 23). Traz mais andorinhas e chuvas mil. Abril traz sentido e Revolução. Abril traz livros e índoles e temperamentos.

Falemos, pois, de livros e do que neles há. Falemos das pessoas que os escrevem ou ficam pela intenção. Falemos de percursos entre lugares e lugar nenhum. Falemos do que um dia se não pôde dizer e do que se corre risco deixar de poder.

Etapa 7: Pena

14 Junho, 2025

Porta dos Cavaleiros, Viseu

Os escritores possuem penas diletas. Ou Parker’s. Ou Bic’s.
Cada escreve com a tecnologia que melhor estiver ao dispor ou aprouver aos encantos. Próprios.

Camilo Castelo Branco, escrevia para lá da norma e da regra. A qualidade em meio à quantidade.

A deusa Maat, no panteão do Antigo Egipto, era o garante da Verdade e da Justiça. Avaliava os vivos e os mortos, neste caso colocando sobre balança de dois pratos, o coração do defunto num deles e uma pena no segundo. O peso do coração não deveria exceder o da pena.

Conta-se de Camilo que o coração sofria com a necessidade da escrita. Com a imposição da palavra e da pena que utilizava para a registar. Conta-se que Maat lhe teria sido severa e gentil. Em simultâneo.

Em Junho, cruzaremos em torno a Camilo e a penas, de escrita e de sentença. Por entre fontes e muralhas, por entre largos e re-centros de cidades.

Etapa 8: Bugalhos

28 Junho, 2025

Mata do Fontelo, Viseu

Que não se confundam “alhos com bugalhos”, será um dos mais amplos ditados quanto a cuidar de não tomar por igual o que é distinto.

Sábia gente a que não necessita de aviso!

Para quem não possa evitar a confusão, por não identificar bugalhos, estará a certeza em não ser fruto ou produção nativa dos carvalhos. É uma casa de vespas – da galha/galheiras – cuja intenção passa por obrigar as árvores a gerar local onde os ovos se desenvolvam e uma nova geração cresça.

Na Mata do Fontelo, onde há Pavões e Loba metálica, há o sentir acre da História que se não identifica diretamente. Há o uso renovado que se escolhe. Há a sonoridade dos habitantes e dos visitantes.

O Fontelo é memória. E porque é isso, será o voltar ao início. Quem somos se não recordarmos? O que somos que se não guardarmos o que fomos aprendendo no caminho?

Ficha Artística

Coordenação/Apresentação
Rui Macário Ribeiro

Registo
Luís Belo

Assistência de Produção
Joana Gomes Martins

A primeira edição do PERIPATOS realizou-se com o Município de Viseu, integrado no seu programa “Aqui há caminhos” no âmbito do projeto-âncora “Aqui há…”, com atividades mensais a realizar em cada sábado. Decorreu entre Novembro de 2024 e Junho de 2025.

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