Texto: Sara Figueiredo Costa

Criações Gráficas: Ana Seia de Matos

No largo da aldeia, o cruzeiro é um património. Se for antigo, se tiver data, se houver uma história relevante e documentada a ele associada, talvez seja um monumento, com direito a classificação publicada em Diário da República, mas será sempre património.

Uma igreja antiga é um monumento, esteja ela quase arruinada (como há tantas) ou bem preservada. A partir de que ano de construção deixa uma igreja de ser um monumento? E um templo que não seja igreja, num país laico e maioritariamente católico, é monumento? Sinagoga Ets Haim, em Angra do Heroísmo, construída no século XIX, cujo edifício ainda existe, não classificada. Mesquita de Lisboa, com cúpula azul e minaretes, em pleno funcionamento, não classificada.

No século XII, Benedito, um cónego da igreja de São Pedro, em Roma, escreve o primeiro guia dos monumentos da cidade. Para ele, eram monumentos pagãos, e ainda assim sentiu a importância de os listar. Mirabilis Urbis Romae era também uma espécie de monumento, erguendo para a memória futura aquilo que os antigos haviam construído. Mas Benedito, como os seus contemporâneos, não via nos monumentos antigos essa distância veneranda que hoje lhes atribuímos. A Roma imperial ainda estava perto e a preservação de tais construções era, muitas vezes, uma reutilização: templos que passavam a ser igrejas, memoriais que ajudavam a suportar novas casas, pedras com um sentido que se desvanecia a servirem de alicerces para currais, lojas, palácios.

Para os que vieram depois da Antiguidade e para ela se voltaram, descobrindo-a numa Idade Média que foi menos das trevas do que se conta, o monumento era a escrita. As pedras com marcas da Grécia e de Roma misturavam-se facilmente com as novas pedras. Para além disso, esboroavam-se, usavam-se para fazer acrescentos e remates, perdiam-se. O que estava escrito, isso sim, prosseguia de pé.

Com os primeiros fulgores do Renascimento, os monumentos antigos ganharam vida nessa procura de um passado capaz de iluminar o presente. As pedras erguidas pelos antigos passaram a ser monumentos por direito próprio, vestígios do que já tinha sido, sinais para uma memória a manter.

Quando restauramos um monumento que se degrada ou ameaça ruína, o que obtemos depois do restauro ainda é esse monumento ou é já outra coisa?

Talvez os monumentos não sejam todos construções e é bem possível que alguns nunca tenham existido a não ser na imaginação, individual e colectiva. Um escudo poderia ser património, objecto histórico, documento, mas o escudo de Aquiles criado por Homero (e Homero, quem o criou?) só existe nos versos que a Ilíada preservou. Nele se guarda o mundo, ainda hoje – guerra e paz, vida e morte, luz e sombra, desejo e tédio.

Na lista de monumentos que hoje vale, com caução da UNESCO ou de outra instituição, há construções que talvez não quisessem lembrar nada nem ninguém. A sua função era utilitária, como aqueles monumentos megalíticos que serviam, na verdade, para observar e tentar compreender o movimento dos astros, ou as termas de Caracalla, em Roma, que eram o lugar onde se tomava banho e se cuidava do corpo.

Às vezes, acontece um monumento seguir as regras da sua própria semântica, nascendo como construção para lembrar algo ou alguém, e acabar na memória popular como elemento hilariante, brejeiro ou desprestigiante: em Macau, uma enorme escultura instalada rotunda assinalou, em 1996, o Dia de Portugal e quis simbolizar os laços entre Oriente e Ocidente, mas toda a gente a conhece como “olho do cu”. E ainda assim é um monumento.

Os monumentos constroem-se para o futuro, num gesto que exprime vontade de fazer recordar um determinado presente. Lembrar e recordar pertencem à sua semântica, misturando grego e latim num significado comum. O paradoxo parece ser o seguinte: a partir do momento da sua edificação, um monumento é já passado e o mesmo acontece com aquilo que nos quer fazer lembrar. Talvez não haja paradoxo nenhum e seja apenas essa a natureza do tempo, sobrepor tudo sem cronologia, deixando-nos com a urgência de inventar uma para melhor nos compreendermos.

Criações Gráficas

Memória Descritiva de Ana Seia de Matos

A definição de monumento é abrangente, podendo ser um edifício, um objecto, um  livro… então decidi criar uma série de “monumentos” improváveis, feitos com materiais efémeros, frágeis, fugindo aos materiais que compõem os monumentos, que se pensam, julgo eu, como sendo sobretudo sólidos, resistentes e duradouros. Escolhi a técnica do crochet, que me permite dar aos objectos um certo carácter escultórico e assim imaginar um universo onde a linha, neste caso de 100% lã portuguesa de ovelha, constrói edifícios feitos para serem habitados e admirados.

© 2024 · Projecto Património / Memória Comum – Associação