Identidade

Texto: Sara Figueiredo Costa

Criações Gráficas: Nuno Leão

Somos o que herdamos, o que descobrimos, o que nos rodeia. Também o que inventamos e decidimos construir. Na verdade, somos muitas possibilidades e talvez nunca saibamos bem o que somos realmente.

É o cruzeiro no centro da aldeia que faz com que a aldeia seja comunidade? Quem ali vive, tem essa construção de pedra como referência desde sempre, é possível que tenha brincado nos seus degraus. O cruzeiro faz parte do que se é, como uma igreja, um menir, um mural, uma árvore muito antiga, um modo de cantar ou celebrar certos momentos do calendário. Património edificado, natural, cultural, reconhecido por decreto ou ignorado, pouco importa. Muitos vestígios a definirem o que somos.

Aristóteles terá dito que o homem é um animal social. Queremos acreditar que falava de seres humanos em geral, mas sabemos que talvez nem lhe tenha ocorrido tal questão e seguimos adiante. Animais sociais, então. Seremos, portanto, aquilo que podemos partilhar – logo, somos também esta embirração pelo facto de as grandes frases que definiram a humanidade serem quase sempre escritas no masculino (e a embirração contra essa embirração, pois claro).

Também somos a faculdade da linguagem, a possibilidade de falarmos entre nós. E a língua, ou as línguas, com que aprendemos o mundo, mesmo que entretanto tenhamos dominado outras. A maldição de Babel assegura, sem necessidade de torres construídas ou destruídas, que mesmo que as dominássemos a todas, nunca teríamos acesso à comunicação plena entre todos os habitantes do planeta. Não é só o idioma que nos define, é o modo como os falamos, as muitas semânticas que cada palavra guarda para cada pessoa que a profere, os significados únicos que não foram dicionarizados.

Quanto do que somos aqui, neste canto de um continente, ecoa as canções dos judeus sefarditas, o pão e o azeite mediterrânicos, os sistemas de irrigação trazidos do norte de África e do Oriente, as gestas europeias medievais? Muito e pouco, dependendo de como estamos no mundo. Certo é que tudo isso e tanto mais nos integra – saibamo-lo ou não. Um pouco como as histórias de família: há as que conhecemos e aquelas que nunca ouvimos, mas todas ajudaram a definir quem somos. Ou como os genes que nunca desvendaremos e que talvez sejam a causa das cãs precoces, de uma pela com sardas, de uma capacidade invulgar para a apneia ou para a loucura.

Pelo menos desde o tempo dos primeiros povos da Mesopotâmia que queremos saber onde está aquilo que somos, em que parte do corpo se guarda a essência do que somos. Anima, assim lhe chamavam os romanos, significando “aquilo que anima, que dá vida”. Alma, viria a chamar-se depois, e a ser apropriada por religiões em todas as geografias. O coração foi hipótese, mas antes disso, o fígado, lugar apontado como resposta por quem dissecava corpos e lhes estudava a anatomia ali entre o Tigre e o Eufrates. O cérebro passou entretanto a melhor candidato, mas talvez o pódio nunca esteja fechado, porque aquilo que somos não se vê entre carne, sangue e vísceras.

Se já podemos descarregar as informações do nosso cérebro para um computador e se pudermos, daqui a ninguém sabe quanto tempo, fazer upload dessas informações para o cérebro de outra pessoa, essa outra pessoa seremos nós? E se o fizermos para uma máquina, um robot, talvez perfeito na antropomorfia, somos nós?

Barro amassado na bancada de há três gerações. Catedral gótica erguida no centro da cidade que hoje pode ser metrópole. Madeiro a arder por todo o mês de Dezembro. Cantos partilhados no largo que já ninguém sabe quem inventou. Guernica a dominar aquela sala do Reina Sofia e a receber visitas de todo o mundo. Gilgamesh e as lendas do Dia dos Mortos, entre sonhos e caveiras, Kalevala e as histórias contadas à volta do embondeiro numa aldeia do centro de África, os Analectos e as cosmogonias em que tartarugas e crocodilos explicam como aparecemos aqui.

Há quem despreze o barro e só veja a catedral. E há quem ignore a catedral e prefira o burburinho das avenidas. Para aquilo que somos, conta tudo, mesmo que não nos contem tudo.

Por trás da pele, do sangue e da massa cinzenta, somos o barro e a catedral, a memória dos que bombardearam Guernica e dos que levaram com as bombas, o canto dos avós e o madeiro sempre em brasa, as avenidas e as máquinas em movimento. E por mais que queiramos fugir, ainda andamos às voltas com o porquê de estarmos aqui, talvez esperando que uma tartaruga ou um crocodilo nos elucidem.

Criações Gráficas

Memória Descritiva de Nuno Leão

What’s in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.
William Shakespeare, Romeo and Juliet

WHAT’S IN A NAME? é um projeto de intervenção artística em espaços públicos e património cultural do artista my name is nobody.

O projeto consiste numa série de inscrições da frase-assinatura do artista em vários espaços públicos (edifícios, fachadas, estatuária, pavimentos…) nas quais se invoca um artista cuja identidade é desconhecida e anónima. A inscrição de cada frase-assinatura explora a tensão existente entre uma identidade cuja existência pessoal é a do anonimato e a história do lugar onde está inscrita, colocando em tensão conceitos de identidade pessoal e identidade coletiva, ao mesmo tempo que se questionam e reconfiguram as escalas e tempos da história.

Este é o primeiro projeto de intervenção do artista, marcando também a sua existência pública pela primeira vez.

 

[Título]
WHAT’S IN A NAME?

[Autoria]
my name is nobody

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